O Restaurante Vazio

O restaurante hoje está vazio. Também, segunda de uma semana comum… Não sei nem o motivo da gente abrir esta segunda. Mas o chefe fez questão. Ele nos disse que sempre abre no dia 8 de dezembro, seja que dia da semana for. Ele também nos disse para esperar um cliente especial.

Demora. São 21 horas quando aparece o tal cliente. O homem vem sozinho, mas pede mesa para dois. Preparo tudo para dois. Taça com água, vinho. Na hora de pedir, o cliente pede carpaccio de entrada e começo os preparos.

A cozinha tá fria, então mesmo um pedido simples demora um pouco. Enquanto isso, eu fico observando. Nosso cliente parece melancólico. Ele é um senhor de cabelos grisalhos. Está bem vestido, terno e gravata. Quase como se tivesse indo para uma festa, ou uma comemoração. Na mão esquerda, uma aliança. Mas aqui ele está sozinho.

Levo até ele o prato com o carpaccio.

— Minha esposa não é muito fã de carpaccio, mas eu sempre peço quando eu venho aqui. Ela só belisca as torradinhas que vem junto.

— Fico feliz que o senhor goste.

Evito perguntar qualquer coisa.

— Garçonete! Você traz para mim uma coquinha zero? E como prato principal eu vou querer esse talharim com polpetone. O carpaccio estava ótimo! A torrada com esse toque de azeite trufado também. Minha esposa iria adorar.

— Sim, claro. Vou lançar o pedido. Você vai querer a coca agora ou com a comida.

— Pode ser agora mesmo. E traz sem gelo e limão mesmo. Não sou muito fã da mistura.

Parece que a comida trouxe ânimo ao cliente. Apesar de ainda dar para sentir uma tristeza no fundo.

Só continuo o meu trabalho por enquanto.

A cozinha começa os preparos.

O homem parece se concentrar hora na cadeira vazia à sua frente, hora no anel no seu dedo. Como se algo estivesse faltando.

Levo o talharim com polpetone.

— Você esqueceu a minha coquinha. Você traz ela por favor?

— Sim, agora mesmo.

Levo a coca.

— Não sei se seu chefe te falou sobre hoje. Hoje é meu aniversário de casamento. Faz 40 anos que me casei com Gabriela. Acho que você notou que ela não está aqui hoje. Hoje também faz 5 anos que ela faleceu…

Balanço a cabeça como se estivesse prestando atenção. Também sorrio e me finjo de triste nos momentos certos. Hoje era pra ser meu descanso, mas pelo jeito não só tenho que trabalhar, como tenho que ouvir drama de cliente chato.

Parece que ele fala mais coisa, conta a história da vida da esposa dele, que eles foram felizes e que conheceram o mundo junto. Ela morreu de alguma forma dramática. Talvez acidente, talvez tédio pela conversa chata desse cara. Ou talvez até vergonha dele ficar contando a vida dos dois pra todo mundo. Sei lá. Não prestei atenção.

Acho que o homem ficou assim por uns 10 minutos. Fico até agoniada com a comida esfriando… No final ele se cansa. Finalmente começa a comer. Pede um doce e um espresso no final. Com cuidado, coloca o doce no lado da mesa que era para ser da esposa e deixa lá. Paga a conta e vai embora.

Pra passar a raiva, como o doce deixado pelo cliente. Defunto não come mesmo.