O Caminho

Sempre ouvi escritores falando que quando eles entram em transe, o livro escreve-se por si só. Como se os personagens fossem vivos. Sempre achei isto meio esquisito. Mas aqui estou eu, com um manuscrito na mão que eu não me lembro de ter escrito, mas que definitivamente é meu. Mais de 300 páginas escritas a mão com a minha própria letra. Meu punho dói e eu estou com medo. O título? “O Caminho”… Que título merda.

Rio um pouco, mas de nervoso. A única vez que ouvi falar sobre isso foi num jogo. E vamos dizer que ele é um jogo não muito alegre. Não que eu acreditasse que homens das sombras iriam me atacar. Bem, não vão me atacar né? Olho em volto confirmando que a luz do meu escritório tá em dia só para ter certeza e luz pisca.

Não tenho mais o manuscrito na mão, mas pelo menos não tem nenhuma sombra atrás de mim. O que tenho é só uma folha:

Marina aparece. Está triste e chorando muito. Me diz que tudo é culpa minha, que a gente não deveria terminar assim. Me pergunta o que ela fez de errado.

“Maurício, eu te amo. Posso melhorar. Se errei foi por te amar demais. Laura nunca te amou de verdade!”

Estou numa cabana no interior. Bem longe da minha casa ou meu escritório. Reconheço a cabana. Já passei feriados aqui com a minha esposa, a Laura. Já Marina do manuscrito, eu não sei quem é. Na verdade nem me apresentei. Você já sabe que sou escritor. Sou Bruno Vasconcelos, sou conhecido no cenário indie americano com um nome falso. Uso-o para fingir que sou americano e me inserir no mercado de lá. Livros em inglês tem alcance maior e, vamos ser sinceros, brasileiro adora criticar qualquer brasileiro que faz sucesso.