Meio Tesouro

Correndo na praia. De um lado somente mar, de outro um deserto esquisito. No fundo uma cidade porto. Vou em direção a cidade. Quero parar e descansar. Pausar e sair deste momento difícil.

A ida até a cidade não é simples ou fácil. Até ela dois vazios. Da água salgada dá para se tirar comida, mas mais nada. O que me salva é um cantil, que não dura muito, mas o suficiente.

Na entrada da cidade há um guarda. Ele me para.

— Qual o seu motivo para estar aqui?

— Vim atrás de comida e abrigo somente.

— Aqui em Guardalabarra? Acho difícil. Não há nada em volta.

— Estou perdido. Não sei nem onde estou e nem onde quero chegar

— Agora sim parece um morador de Guardalabarra. Aqui é a cidade das pessoas que pararam no meio do caminho, que não sabem mais para onde seguir. Nós buscamos viver o melhor possível aqui e amamos nossos meio-tesouros, mas vivemos sempre com a sensação de que poderíamos ter conseguido mais.

— Parece meio triste.

— Eu diria que depende. Eu aprendi a viver com o meu meio-tesouro e a apreciar o que eu consegui. Mas tem sim muita gente melancólica. Pessoas com medo de terem seus meio-tesouros roubados e pessoas que invejam os meio-tesouros das outras como se fossem tesouros completos.

— Mas o que diferencia um meio-tesouro de um tesouro completo?

— Meio-tesouros são como quase-verdades. Te ajudam na sua jornada, te dão algo para ficar de pé, mas no momento certo, o meio-tesouro tem que ser abandonado para se chegar ao tesouro real. É como se fosse uma arma que tem que ser quebrada para se ganhar do dragão. Talvez você ache um meio-tesouro para você aqui.

O guarda me dá passagem e me deixa entrar na cidade.

Passo pelo grande portão. A cidade é toda cor de areia, suja, mas com um certo tom esquisito de orgulho e tenacidade. Difícil explicar. Quase como se todo mundo fosse de classe média baixa, mas que se acha rico. Talvez esta seja toda a coisa do meio-tesouro que o guarda me falou. Algo como se achar especial.

Faz sentido, num mundo onde ninguém tem nada, ter alguma coisa, mesmo que simples, pode te fazer sentir especial. Aqui todos tem alguma identidade por terem algo que, mesmo simples ou inútil, te faz ser diferente. Acredito que isto deve servir como algum aviso para mim também. Se eu achar algum tesouro por aqui, eu não posso me deixar virar uma dessas pessoas que se acham especiais. O segredo é a humildade. Se saber ser o mesmo que o restante das pessoas mesmo sendo diferente em algum sentido.

Não nego que possa ser bastante confuso.

A cidade inteira está dentro de uma grande muralha. Ela segue uma grande rua em espiral que vai subindo. No topo um castelo. As coisas guardam um certo luxo, mas algo meio exagerado, como se as pessoas quisessem se mostrar, mas não conseguissem. Ao invés de ouro, você vê bastante prata. Tecidos de cores fortes, mas nada vermelho ou roxo. Olhares tristes e raivosos nas ruas. Procuro uma tarverna para descansar e passar a noite. Hoje sou só um bardo a procura da sua arte. De aprender mais.

Na metade do caminho acho a taverna. Entro:

— Senhor, quanto está a diária?

— Mal trapido deste jeito e acha que pode dormir.

— Mas senhor, o nome da tarvena é Suricate mal-vestido

— Sim, não mal trapido, esmigalhado e humilhado

— Mas eu posso pagar - respondo mostrando uma moeda de ouro

— Esconde isso muleque burro, você tá na cidade da prata - diz ele falando baixo para mim e, agora, mais amigável - me dá isso que aqui o ouro não tem vez

Dou a moeda ao taverneiro.

— Prepare um banho quente para nosso cliente, Regina, e separa umas roupas limpas para ele. Te darei o tratamento que merece. Está aqui para o quê meu amigo?

— Procuro só um abrigo

— Aqui em Guardalabarra? Ninguém vem aqui só para isto. A cidade das grandes descobertas

— Me disseram que é a cidade dos meio-tesouros

— Isso é inveja. Tesouro demais gera isto. A cidade dá para as pessoas os tesouros que elas merecem, mas as pessoas sempre querem mais. Querem o tesouro do outro.

Finjo não perceber que o taverneiro não está de olho grande nos meus pertences.

— Olha, descubra por você mesmo. Logo na entrada do castelo real há uma entrada para uma caverna que leva até a sala do tesouro real. Entrando na sala, você verá um único tesouro, ao invés de todos do palácio. Ele é seu. Veja se não é um tesouro grandioso, que vale toda a sua vida.

— Leva até o tesouro real? Que esquisito

— Está ligada a uma antiga maldição que diz que o rei deve dar um único tesouro da sua sala de tesouro reais para cada pessoa nova na cidade, se não sua filha morrerá. Ninguém sabe se a maldição é real mesmo, mas pra combater ela sem perder nenhum tesouro, o rei chamou o mago real que fez uma magia onde todas as pessoas que entram na sala veêm um único tesouro e uma única vez.

— Me parece combater loucura com loucura.

— O rei não se importa. Ele só tá feliz de não ter que ficar lidando com todas as pessoas do reino e de não ter que lidar com perder seus tesouros.

— Como assim?

— Essa magia faz com que o tesouro que a pessoa pegue seja o tesouro que a pessoa merece e não algo que esteja na sala. Pode ser qualquer coisa de qualquer lugar do mundo.

Com isto me despido do taverneiro, que do nada decidiu passar a ser amigável após ver dinheiro, e vou para meu quarto. Tomo banho e durmo. No meu sonho eu vejo esta caverna, eu flutuo dentro dela e vou até a grande sala do tesouro. Nela um grande brilho. Vejo algo, mas não consigo identificar. Será um tesouro real ou um meio-tesouro? Não estava a procura de nada, mas como fui trazido aqui, como um bom bardo, quero saber deste tesouro e da história por trás para transformar-los em algo maior, em arte.

Para todo bom bardo, todo tesouro é um meio-tesouro para o tesouro real de uma grande arte, uma grande história. Mover o coração das pessoas é o que todo grande bardo quer. Só um meio-bardo faria música sem acreditar no seu poder. Contaria histórias sem acreditar que cada momento ali tem que ser o que está na realidade. Esta realidade é só uma metade para se chegar ao inteiro da obra-prima e finalmente grande o meu certificado de bardo!