Ensaio Sobre Exercícios Filosóficos
A filosofia aparentava para mim de duas formas, uma externa e uma interna a mim. Ou seja, como uma forma de conhecer algo melhor e como uma forma de eu me conhecer melhor. Todavia, há uma terceira forma que vai se apresentar como uma forma de se melhorar. Talvez ela seja mais uma faceta do autoconhecimento, mas só investigando para saber.
No momento eu não estou intrigado se esta é ou não uma faceta, mas sim quais são os possíveis exercícios filosóficos e como eles podem nos melhorar.
Para começar, primeiro precisamos pensar o que seria um “exercício filosófico”. Pelo uso da palavra exercício, sabemos que ele é um ato ou ação que visa praticar, aperfeiçoar ou aprender algo. No exercício físico praticamos uma série de movimentos para treinar um músculo. Nas ciências, a gente busca aprender ou fortalecer algum conhecimento, seja de história, matemática, física, etc. Em qualquer uso, a palavra exercício está ligada a um aprendizado ou treino de algo. Nos exercícios filosóficos, ela vai estar ligada a uma prática, treino e aprendizado de filosofia. Todavia, esta é só uma das camadas da palavra exercício. Devemos lembrar e analisar também o contexto onde ela é usada.
A palavra exercício é sempre usada em um contexto de aprendizado de um grupo ou de um indivíduo, com ou sem um mestre. O que isto quer dizer é que não dizemos que um jogador está fazendo exercício de futebol ou treinando quando este está numa partida profissional. Um engenheiro civil não está fazendo exercício quando está fazendo um cálculo para um prédio que irá ser construído. Por fim, o exercício também isola uma parte específica de algo visando o treino de uma característica, capacidade ou técnica de forma artificial. No contexto do esporte, um exercício de tiro isola o ato de correr do restante das técnicas. Nas ciências, há um isolamento de contexto também: retirada do atrito, da resistência do ar, isolamento de um contexto histórico. O que acaba acontecendo nos exercícios é algo similar aos testes unitários na programação.
O que temos com isto é que fazer exercício de filosofia não é filosofar. Não é o que eu estou fazendo aqui ao questionar a natureza de algo, mas sim a prática recorrente e planejada para melhorar alguma técnica ou capacidade necessária para se exercer filosofia.
A partir daí o questionamento muda para “qual é a natureza da filosofia e quais são as capacidades e características da filosofia?”. Há as mais diversas respostas para esta pergunta e eu não estou aqui para te dizer qual é a correta. Vou só me reservar a escolher a que mais me agrada e continuar por ela. Você sinta-se livre para continuar daqui com a sua resposta preferida e repetir meus métodos.
Para mim, a filosofia é a busca por estar cada vez mais próximo da sabedoria, sendo a principal manifestação desta sabedoria a arte do bem viver. O filósofo busca, antes de tudo, a felicidade ou eudaimonia para junto da sabedoria. Como é uma eudaimonia junto a sabedoria, o filósofo vai sempre buscar a razão frente às questões do mundo, valorizando a calma e as virtudes que acredita necessárias ao bem viver.
O filosofar é então o ato de se pensar as questões do bem viver se utilizando da razão para ir em direção à eudaimonia. Daí destaco que tanto o filosofar quanto os exercícios filosóficos vão estar ligados ao ato de pensar. Isto não quer dizer que o filosofar ou os exercícios filosóficos não envolvam o corpo.
Na verdade, acredito até ser o oposto, que a maioria tenha como base algum controle de alguma faculdade corpórea de alguma forma, evitando a ação por impulso.
Então falar de exercício filosófico é falar de prática isolada de alguma faculdade ou capacidade necessária para o bem pensar e/ou o bem viver, visando melhorá-lo. Na parte do bem pensar, a gente tem uma lista de faculdades bem conhecidas: foco; atenção; claridade de ideias; honestidade; capacidade lógico-matemática. Contudo, no bem viver as coisas já complicam mais, posto que cada corrente filosófica terá suas ideias. Talvez possamos falar em algumas capacidades mais repetidas, como ser capaz de se avaliar; conseguir se controlar; ser calmo.
Com isto, a gente pode finalmente começar a traçar alguns exercícios e analisar a sua eficácia. Um exercício que junta bastante o treino de faculdades citadas acima é a meditação, em especial a mindfulness. Neste tipo de meditação, o objetivo é treinar o foco, a calma e a capacidade de lidar com o tédio e a frustração. Através da calma e do foco, conseguimos pensar melhor e destrinchar problemas. A capacidade de lidar com tédio e frustração também ajudam a dar a resiliência para lidar com os desafios da vida ou da própria filosofia.
Derivado das características acima, também podemos citar qualquer exercício físico, onde a pessoa é levada ao limite, onde ela também treina seu foco e resiliência.
Outros exercícios que seguem a mesma linha são os que pregam por controle físico, como práticas de jejum ou de evitar algo que a pessoa realmente goste.
Por fim, na mesma linha, ainda podemos citar qualquer jogo que trabalhe a resistência ao tédio e frustração de algum modo no jogador. Jogos ao estilo Souls Like são famosos com relação a aumentar a resiliência e confiança de seus jogadores.
Contudo, acho que não há nenhum outro exercício que trabalhe atenção, foco, calma e resiliência mental como a meditação. Se pensarmos num ranking, a prática física estaria num bom segundo lugar, se praticada sem nenhuma distração.
Uma segunda categoria de exercícios filosóficos seriam os que melhoraram a capacidade lógica e a claridade das ideias. Aqui podemos incluir como primordial o cálculo lógico e o exercício da retórica.
O cálculo lógico é bem simples e segue a linha dos exercícios de matemática, que pode ser visto como um substituto de segunda linha a própria lógica. Ele melhora a capacidade de entender e analisar ideias.
Já a retórica é mais complexa. Nela a gente tem o estudo em si das técnicas de retórica e os exercícios de retórica. Como estamos falando de exercícios filosóficos, estamos falando de exercícios de clarificar ideias e apresentá-las de um modo mais palatável. Estamos falando de um exercício de ler e re-escrever argumentos, de reorganizar ideias de forma a se tirar novas conclusões ou só torná-las mais fácil de entender.
A última categoria de exercícios que eu trago aqui são as de se auto-avaliar, talvez o cerne da ideia de filosofia como bem viver, a busca por se entender.
Aqui podemos adicionar avaliação de textos passados, atitudes tomadas e até diários. Uma maneira que eu vi sendo usada por adeptos do bullet journal é o uso de tabelas.
Independente do que se busca analisar e o método, a parte importante e mais difícil desse processo é ser sincero consigo mesmo para conseguir perceber os problemas e ver o que corrigir. Até por isso, este processo é lento e exige determinação do filósofo.
Posta todas estas formas de exercício filosófico, posso falar agora de exercícios primários, que treinam de forma direta capacidades necessárias à prática da filosofia; e exercícios secundários, que treinam características do bom filósofo, mas focam em outras coisas primeiro.
Na lista de exercícios primários temos a prática da auto-avaliação, da lógica e da retórica, sendo esta última possível de ser praticada pela auto-avaliação, por criação de ensaios ou textos filosóficos, ou sozinho.
E, por fim, na lista dos exercícios secundários, se encontra o estudo da matemática, a prática da meditação, exercícios de resiliência e a prática de esportes.
Apesar das categorias, ambos os dois níveis de exercícios são importantes para garantir o frescor das capacidades crítico-filosóficas.